É bem verdade que há uma geração à rasca. Assim o tenho constatado desde há bastante tempo. Gentes com licenciaturas, bem formadas, com conhecimentos técnicos elevados e já na década dos 40 anos de idade, que nunca conheceram o mundo laboral. Obviamente que isto também afecta os que lhes são mais próximos. Não, não é só de agora! Já vem de há longo tempo. Não culpem só a crise actual, devem culpar sim a nossa própria forma de estar, bem características dos portugueses.
Já em tempos de descobrimentos marítimos a nossa forma de estar era a mesma de agora. Investimento e inovação nunca existiu. Sempre fomos mais do desenrasca. Aliás, somos conhecidos no estrangeiro por desenrascarmos tudo, entenda-se remediarmos tudo. Desenrascámos forma de contornar um caminho marítimo para a Índia, para sermos nós a colocar as especiarias na Europa e a lucrarmos, mas depois não investimos nem inovámos. Quisemos antes mostrar os anéis nos dedos e quando acabou passámos outra vez ao desenrasca. Os ingleses investiram o que recolheram do seu império, do corso feito aos navios portugueses carregados de ouro do Brasil e fizeram a revolução industrial. Já em 1690, tal como nos dias de hoje, gostávamos mais de fazer a vida difícil aos inovadores que apostavam na industrialização do país como no caso do Conde da Ericeira.
Nos actuais dias desenrascamos formas de fugir aos impostos, de descontar o menos possível para a segurança social, etc. Andámos mais de duas décadas em que não descontávamos para a segurança social. - "Ó pá, és mesmo parvo, então vais descontar quando só conta o melhor ano dos últimos cinco" - ou coisa assim do género. Com a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE), continuámos no desenrasca. Na agricultura os "Senhores engenheiros" diziam que era só plantar determinada cultura para receber o subsídio e a partir daí a cultura já podia perecer porque o controlo não existia. Assim Portugal parece ter sido o único país onde os subsídios europeus produziram jipes para o filho, filha e mulher; piscinas e vivendas de luxo. Declaram-se ordenados baixos, os filhos recebem ajuda social mas vão de carro para a universidade ou então andam nos colégios financiados com os impostos públicos. Pagam-se as compras no hipermercado com senhas de alimentação e nas bombas de combustíveis com senhas de combustível que servem para os patrões fugirem ao pagamento de impostos e às contribuições para a segurança social. A classe política é uma oligarquia em que todos são família. O político hoje tem assento na Assembleia da Republica e amanhã numa grande empresa estratégica com ordenados milionários. Além do mais as leis são feitas para poderem ser contornadas, quando tal for conveniente. São feitas pelos legisladores políticos que depois vão ser os consultores das tais empresas estratégicas e sabem como as contornar, porque foram eles que as fizeram. Falamos do aumento dos combustíveis, mas continuamos nas numerosas filas de automóveis em vez de irmos de transportes públicos. Com a agravante que se olharmos para a composição dos passageiros nas viaturas, verificamos que 90% dos veículos têm só o condutor no interior. É assim que contribuímos para ajudar o país. Agora pusemos os funcionários públicos, que nunca puderam fugir aos impostos e aos contornos do desenrasca, além de serem a minoria na totalidade da população, a pagar as fugas dos particulares. Aos particulares não têm coragem para o fazer e então agora vão ao bolso dos pensionistas, porque esses se puderam fugir anteriormente, agora já não se safam porque é uma instituição do estado a pagar-lhes a reforma o que não me desagrada de todo. E se fosse o estado sempre a pagar? Ou seja a exercer um controlo rigoroso sobre o pagamento das empresas. É só uma ideia estúpida...
Isto leva-me ao a um encadeamento de expressões que também rimam muito bem. Começámos algures numa geração do desenrasca, passámos por gerações rascas e agora estamos nas gerações à rasca, mas o futuro parece reservar-nos gerações super. Quanto mais não seja super arasca!
Isto leva-me ao a um encadeamento de expressões que também rimam muito bem. Começámos algures numa geração do desenrasca, passámos por gerações rascas e agora estamos nas gerações à rasca, mas o futuro parece reservar-nos gerações super. Quanto mais não seja super arasca!
JJ Lourenço